quarta-feira, 29 de maio de 2013

Revista da Imprensa Antiga (9)

MENDICIDADE

Que vemos? Tantos lumes, tantas flores, tantas sedas e rendas caras, tantos andrajos, tanta fome, tanta miséria, eis um contraste flagrante aqui, na nossa terra, tão pequena, onde todos nos conhecemos, e parece não sentirmos as desgraças que, bem perto de nós, chamam a nossa protecção. Criancinhas quase nuas, com os frios que têm estado, raparigas ainda novas, magras, esquálidas algumas, cansadas do trabalho atrofiante da almofada, único arrimo da sua atribulada vida, velhinhos andrajosos arrastando a sua existência triste, desconfortável. Vemos tudo isso, a passar aí nas ruas, sabemos como vivem, e somente, quando aos sábados em magotes, imploram a nossa esmola, nos incomodamos e bradamos contra a mendicidade.
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"A Republica", de 25 de Janeiro de 1930

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Revista da Imprensa Antiga (8)

 A FEIRA DOS 3

Esteve concorridíssima a feira anual dos 3 d'Agosto. Praça de S. João, Praça da República, Rua 5 d'Outubro e Avenida Campos Henriques, regurgitavam de povo. É a feira dos derriços. Marias houve que, num abrir e fechar d'olhos, davam expediente a meia dúzia de Maneis, derriçando ora em prosa, ora em verso. Comboios, americanos, restaurantes, hotéis, casas de pasto e cafés fizeram excelente negócio. Que nos conste, nem furtos, nem desordens nem qualquer outra ocorrência desagradável.
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"A Republica", de 8 de Agosto de 1915

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Património Cultural em Imagem (XLV)


Edifício do século XVIII, a Casa de Burgães, solar dos Carneiro Pizarro, extenso como a Rua da Costa, desde Santa Luzia à esquina que dá para o Largo do Tijolo, foi "uma das casas mais nobres e mais ricas, não só de Vila do Conde como do País" (dizia o comandante João dos Reis). Viria, depois, na roda do aziago destino, a albergar um Tribunal, uma Cadeia, uma Estação de Correios, e serviu de sede a uma Comissão de Moradores, até cair sem préstimo na lástima das portas fechadas e do interior vazio. Há-de vir, um dia, a obra de recuperação. Para que regresse a imagem da sua grandeza monumental. E para que se possa ver, finalmente, o quarto para onde apontava a Dona Beatriz, avó do senhor Pizarro Monteiro, a dizer que ali nascera o José Maria, filho do juiz Teixeira de Queiroz e de Carolina Pereira d'Eça que preferiu ficar incógnita.

sábado, 20 de abril de 2013

Revista da Imprensa Antiga (7)

NO LARGO DOS ARTISTAS

Para o centro da vila, como este largo está situado, temos chamado várias vezes  a atenção das autoridades para a garotada que ali se junta e que se porta de tal forma que não só irrita mas enerva quem ali mora ou passa. Ontem, por duas vezes os matulões se envolveram em desordem e como desfecho recebeu um dos mais matulas, uma facada nas costas, ao fim de várias pauladas. No coração da vila, não se pode tolerar tais espectáculos! Esperemos que a autoridade ponha cobro a semelhantes cenas. Assim como ontem  enviou um para a cadeia, deve continuar a proceder assim para ver se aquele largo fica limpo de tais garotos, que ali envergonham a terra ante estranho que presenceie e ouça os palavrões que eles soltam.
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"O Democratico", de 22 de Janeiro de 1928

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Revista da Imprensa Antiga (6)

IGREJA DE SANTA CLARA

Têm continuado as obras de restauro da Igreja de Santa Clara, e pena é que a verba orçamentada não permita que o número dos operários seja mais elevado. Actualmente está-se procedendo à cobertura da antiga "Casa do Capítulo" com o material que era da "Casa da Visitação" ou "dos Padres" que está quase destelhada completamente. Dentro da Igreja foi levantado o chão que era de pedra e substituído por outro, também de pedra, mas com a simetria necessária. Com a demolição da inútil "Casa dos Padres" ficará a Igreja com o seu belo exterior da parte Norte sem nada a encobri-lo, o qual, depois de reparado convenientemente, mais belezas arquitectónicas patenteará aos olhos dos visitantes.
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"O Democratico", de 6 de Fevereiro de 1931

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Revista da Imprensa Antiga (5)

RANCHOS

Considerando que é mister evitar a bordoada que por vezes tem estado prestes a desabar entre os a paniguados dos ranchos do Monte e da Praça;
Considerando que a União faz a força, como já diziam os bisavós dos avós dos nossos pais;
Considerando ainda que essa fórmula trará benefícios para Vila do Conde, porque a rivalidade neste caso, não dá nada, o Grupo Mangerical decreta em nome da Revolução dos Costumes:
1º Que os ranchos do Monte e da Praça faleçam e se enterrem juntos, colocando-se-lhes na campa uma cruz e o epitáfio seguinte: "Aqui jazem uns zaragateiros que só na morte se puderam unir. Perdoe-se-lhes o mal que fizeram pela intenção com que o faziam".
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"O Mangerico", de 14 de Julho de 1921

domingo, 7 de abril de 2013

Revista da Imprensa Antiga (4)

NA PROCISSÃO DO CORPO DE DEUS

Um episódio interessante.
Pouco depois de principiar a desfilar o cortejo, um dos  cavalos que formavam o estado-maior de S.Jorge espantou-se, empinou-se no ar, o que produziu grande susto entre o povo que formava alas. Uma confusão enorme; um sussurro espantoso; algumas mulheres caíram, outras fugiram. Por fim, o fogoso animal sossegou, e o povo voltou à sua natural serenidade, olhando demoradamente o S. Jorge, com aquele mesmo ar risonho com que o contemplou em todos os anos anteriores, quando ele igualmente empunhava a sua lança, de que o sol quente da primavera agonizante arranca vivíssimas cintilações.
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"Jornal de Villa do Conde", 2 de Junho de 1888